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Estudar chinês é difícil?

21 jun, 2017

Frequentemente me deparo com essa pergunta: “Chinês é difícil?” Bom, depende do que você chama de difícil. Primeiro temos que falar sobre a dificuldade em estudar uma língua.

Muitas pessoas às vezes vêm com informações (erradas) de que viram em algum lugar que a língua tal é a mais difícil do mundo ou que a língua tal é mais difícil do que alguma outra. E isso nos leva a uma outra pergunta: “Existe uma língua mais difícil do que a outra?” E a resposta é um grande “NÃO”.

Todos os idiomas são capazes de descrever os mesmos cenários, expressar os mesmos sentimentos, as mesmas ideias, etc. Afinal de contas, todos somos seres humanos e vivemos em um mesmo mundo e com os mesmos objetos, sentimentos, desejos, enfim, a mesma realidade. O que difere de um idioma a outro é como todas essas informações são organizadas em forma de frases em que todos os seus falantes compreendam o que está sendo dito. Deste modo, o primeiro dos fatores que contribuem para que uma língua seja considerada mais difícil ou mais fácil do que a outra é o grau de (dis)semelhança entre elas.

Creio que você, falante nativo de português assim como eu irá concordar que a língua espanhola é muito mais fácil de aprender do que a língua chinesa. E isso se deve ao fato de que a gramática da nossa língua com a do espanhol é muito semelhante, grande parte do vocabulário é igual (ou muito parecido, com pequenas diferenças), o background histórico e cultural é semelhante, o som das palavras é parecido, entre outras similaridades. Mas pergunte a um chinês se ele acha fácil aprender português, espanhol ou até mesmo inglês. Provavelmente ele lhe responderá que preferiria aprender cantonês ou alguma outra língua mais aparentada do mandarim. Devido a isso, aliás, é que a maioria dos chineses não fala inglês muito bem, pois a dificuldade que eles sentem ao aprender a língua é grande, já que a língua inglesa possui uma gramática diferente da chinesa, além de sons “estranhos” para um chinês. Aliás, está aí uma dica para quem acha que pode se virar tranquilamente falando inglês na China: não é tranquilo.

O mandarim, por ter uma gramática bastante diferente da nossa, e principalmente por ter uma escrita aparentemente incompreensível, é visto com preconceito, como um bicho de sete cabeças. Entretanto, a escrita possui, sim, uma lógica e, apesar de demandar um esforço a mais por parte do aluno, essa dificuldade é compensada por outro lado pela simplicidade da gramática. O mandarim não possui, por exemplo, conjugação de verbo. A diferença entre “eu sou”, “ele é” e “nós somos” é simplesmente a diferença do “eu”, “ele” e “nós”, já que o verbo “ser” não muda ( “我是”, “他是”, “我们是” ). Além disso, o mandarim não possui diferenças grandes entre singular e plural, passado, presente e futuro, entre outras simplificações.

A verdade é que nós brasileiros, de modo geral, não estamos acostumados a estudar “firme” e, como as línguas estrangeiras às quais estamos acostumados a ter contato são mais aparentadas do português, geralmente fazemos um estudo “meia-boca” e consideramos isso o suficiente. Além disso, todos nós brasileiros somos bombardeados por músicas e filmes de língua inglesa ou espanhola, o que faz com que tenhamos pelo menos alguma noção dessas línguas. Quem não sabe alguns “I love you” ou “hasta la vista, baby” por aí? Já em relação a informações da China e do mandarim não temos esse contato frequente. Isso nos leva à segunda dificuldade aparente do mandarim: onde eu acho material para estudar chinês?

Realmente, material para o estudo do mandarim até é possível de ser encontrado (em língua inglesa existem vários livros e dicionários), porém, em língua portuguesa, não possuímos muitos. E geralmente o que temos são traduções de materiais em outras línguas, não traduções diretas do mandarim (o que resulta em uma série de problemas). Diante dessa dificuldade na busca de material, muitos alunos podem se sentir desmotivados a continuar seus estudos em chinês. Os estudantes de mandarim de hoje são de certa forma desbravadores. Eles passam pela mesma dificuldade que os estudantes de inglês passaram quando os EUA atingiram a hegemonia econômica no começo do século passado e o inglês passou a ser a língua dominante (para quem não se lembra, antes a língua de prestígio no ocidente era o francês e, antes dele, o latim). Os estudantes de mandarim de hoje são pioneiros. E quem é pioneiro sai na frente. E quem é pioneiro em mandarim sai na frente duas vezes.

Quem estuda mandarim sai na frente duas vezes primeiro porque a China já é a segunda maior economia do mundo e, desde 2009, o maior parceiro comercial do Brasil. O que não faltam são empresas brasileiras e chinesas contratando falantes de português e mandarim. Segundo porque, como existe esse preconceito em relação à língua chinesa, o estudante de mandarim ocupa uma posição que a maioria das pessoas tem medo de ocupar.

Estudar chinês é difícil? Não. É fácil? Também não. Mas quem estuda certamente colherá os frutos pelo esforço e empenho. E, quando esse momento chegar, então não será difícil ter sido bem sucedido.

Enrico Brasil – proprietário da Huawen